Poluição do ar na saúde infantil

Erroneamente, a poluição atmosférica é endereçada apenas como uma questão ambiental. Contudo, seu principal impacto está diretamente relacionado à saúde do ser humano. Especialmente crianças, bebês e fetos. Ou seja, a saúde infantil é um dos maiores problemas da poluição do ar.


No seriado de TV "The Handsmaid's Tale" apresenta-se uma distopia futurista em que muitas mulheres se tornaram inférteis. Algumas são, até mesmo, vítimas de abortos espontâneos. Por mais que essa seja uma ficção, a representação não está muito longe da realidade. Por exemplo, já vimos acontecer uma situação parecida em Cubatão no Brasil na década de 1980. Isso demonstra que a poluição do ar é capaz de causar terríveis malefícios à saúde humana e gestacional.


Atualmente, os fetos sofrem diversos males, inclusive a morte, a prematuridade e o baixo desenvolvimento diretamente pela poluição atmosférica. Para entender melhor o impacto dessa questão na saúde das crianças e garantir um possível futuro menos distópico (com pitadas de Margaret Atwood), continue nesse artigo.

Contextualizando o impacto da poluição do ar na saúde infantil com números


Frequentemente, muitas discussões sobre o tema da poluição atmosférica ainda estão relacionadas sobretudo ao meio ambiente. Contudo, conforme a comunidade científica se debruça sobre esse tema, novos estudos demonstram a abrangência deste tópico. Assim, esse tipo de poluição tem impacto direto em diversas áreas como economia, saúde e mudanças climáticas.


Para começar a discussão, deve-se salientar alguns dados importantes acerca da poluição do ar e o bem-estar humano. Em especial, daqueles que acabaram de completar os primeiros anos de vida. O primeiro ponto é o número massivo de crianças que morrem prematuramente devido à má qualidade do ar. Conforme podemos ver nesse documento da Bernard van Leer Foundation, segundo a OMS são cerca 600 mil vidas perdidas por ano.


Essa quantidade assustadora é consequência, principalmente, da exposição das crianças ao material particulado. Esse poluente é extremamente perigoso e causa tantos problemas na saúde quanto o cigarro. Nesse cenário, estima-se que a população infantil seja 30% mais exposta a esse contaminante do que os adultos pelos seguintes motivos:

  1. Elas respiram e brincam mais próximas do chão, onde há maior concentração de poluentes;

  2. Estão na altura dos escapamentos dos carros;

  3. Sua frequência respiratória pode ser até 2 vezes maior do que a dos adultos. Ou seja, elas respiram maior volume de ar (50% mais ar). Isso acontece pois a criança tem um pulmão maior em área de superfície por quilograma de peso corporal.

Outro motivo importante que colabora para a maior sensibilidade das crianças aos poluentes do ar é o fato delas estarem em desenvolvimento biológico. Assim, seus sistemas respiratório, neurológico e imunológico ainda estão em fase de amadurecimento.


Quais são as origens da poluição do ar?


A poluição pode ter origem externa ou interna, ou seja, ter sua origem fora ou dentro da casa das pessoas.


Poluição Externa

No primeiro caso, os poluentes no ar podem ser provenientes de queimadas ou da queima de combustíveis fósseis ou de indústrias. Quando se trata de poluição externa em áreas urbanas, seu principal gerador é o setor de transportes ou industrial. Por outro lado, no caso de poluição externa em zonas rurais, o foco são as queimadas agrossilvopastoris.


O que comprova esse dados são os números altíssimos desses setores. O ramo de transportes, por exemplo, apresentou a maior taxa de demanda por energia nos últimos dez anos. Esse consumo de energia está associado, especialmente, à ineficiência do uso da mesma. Nesse caso, os veículos particulares (automóveis), concentram somente 25% do total de viagens no país, mas consomem 60% do total de energia destinada à mobilidade urbana.


Outra questão relevante nesse sentido, é o alto consumo de diesel no setor de transportes. Esse é o combustível mais poluente, em comparação com a gasolina e ao álcool, pois:

  1. O diesel é formado por moléculas de maior cadeia carbônica, tornando-se um hidrocarboneto mais pesado que a gasolina.

  2. Emite o Material Particulado (MP)

  3. Existem metais pesados em sua composição, que são substâncias altamente perigosas para a saúde humana.

Existem planos para que esse combustível seja proibido em lugares como a Inglaterra. Porém, no Brasil, o consumo de óleo diesel continua alto e sem previsão de ser regulamentado.


Poluição Interna

No segundo caso, quando os poluentes são de origem interna, relaciona-se ao uso de madeira, esterco ou carvão nos preparos de comida. Portanto, a contaminação está em casa. Esse tipo de poluição pode acontecer tanto em cidades, quanto no meio rural.


Devido à crise econômica, inflação do gás de cozinha e os altos índices de desemprego no país, o uso de lenha para cozinhar aumentou entre 2016 e 2018. Assim, aproximadamente 24,4% da energia residencial deriva hoje do uso de lenha, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O crescimento dessa prática também é visível em dados do IBGE. Em 2018, foram 14 milhões de famílias que usavam lenha ou carvão vegetal para cozinhar, um aumento de 3 milhões em relação a 2016.


Ademais, em números globais, cerca de 3 bilhões de pessoas ainda usam fogões a querosene, biomassa e carvão, segundo a OMS. Nessa situação, os mais afetados são mulheres, crianças e idosos, pois tendem a ficar mais tempo em casa.


Enfim, o contexto apresentado é bastante preocupante e, também, ainda pouco abordado. No próximo tópico vamos entender mais sobre as consequências dessa realidade na saúde das crianças, bebês e fetos.


Os impactos da poluição do ar na saúde infantil

Nos fetos e bebês

No que diz respeito a vida e o bem-estar dos fetos e bebês, os principais impactos das exposições precoces ao ar contaminado são:

  • Prematuridade

  • Baixo peso ao nascer

  • Óbito neonatal e pós-neonatal

  • Óbito fetal

Além disso, deve-se salientar que o contato com a poluição atmosférica na gravidez impacta o feto de maneira permanente. Essa relação pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo do bebê e predispô-lo a doenças cardiovasculares e respiratórias na vida adulta. Alguns exemplos são hipertensão e doença coronariana, e até mesmo, obesidade, diabetes e câncer.


Nas crianças

Em relação às crianças, há poucos estudos que relacionam a mortalidade infantil com exposição a poluentes atmosféricos. Porém, a metanálise de Gouveia e Fletcher (2018) mostrou que existe uma associação significativa entre os níveis de Material Particulado 10 (MP10) e mortes infantis respiratórias nas cidades de São Paulo, Cidade do México e Santiago.

Além disso, existem evidências que o ar contaminado cause:

  • Câncer infantil;

  • Otite média;

  • Doenças hematológicas;

  • Respiratórias (como asma, bronquiolite e pneumonia);

  • Neurológicas e psiquiátricas (como prejuízo do neurodesenvolvimento mental e motor, prejuízo cognitivo e desempenho acadêmico, transtornos comportamentais, déficit de atenção e hiperatividade);

  • Alérgicas;

  • Reumatológicas (como artrite juvenil e lúpus);

  • Dermatológicas (como dermatite atópica).

O que pode ser feito para impedir esse cenário?

Diante dos impactos da poluição do ar na saúde infantil, deve-se lembrar que existem formas de apoiar o combate da poluição atmosférica em situações cotidianas. Por exemplo, através de mudanças de hábitos e ao incentivar a discussão desse tema entre amigos, familiares e conhecidos.

Nesse último tópico, abordaremos algumas medidas simples e individuais, mas também outras que concernem aos responsáveis pelas políticas públicas. Essas últimas são mais urgentes e com maior efeito na realidade.


Medidas individuais

  1. Alternar o uso do carro com outros meios de transporte: é verdade que o seu carro unicamente não faz muita diferença no total de emissões. Porém, construir novos hábitos mais saudáveis para o mundo e para sua família, pode inspirar e impactar outras pessoas e, isso sim, faz diferença.

  2. Reivindicar o regulamento do tráfego, por parte dos órgãos responsáveis: ou seja, cobrar do poder público a delimitação de zonas próximas a escolas como livres de carros.

  3. Incentivar a criação de áreas verdes na sua cidade e, quem sabe, participar de um mutirão de plantio no parque mais próximo?

  4. Demandar do poder público o acesso de famílias de baixa renda ao gás de cozinha. Esse item se tornou inviável para grande parte da população nos últimos anos.

  5. Votar nas eleições em gestores que combatem a poluição do ar e suas consequências.

  6. Estudar sobre essas questões, a fim de criar novos hábitos que poluem menos o Meio Ambiente.

Responsabilidades e possíveis resoluções do poder público e iniciativa privada

  1. A regulação do tráfego, como foi supracitado;

  2. A transição da frota de veículos para uma matriz energética limpa e renovável;

  3. O apoio na transição de famílias que usam combustíveis sólidos para cocção para o gás de cozinha;

  4. Construção de mais áreas verdes nas cidades, como parques e praças;

  5. A redução do uso do diesel e do carvão na indústria;

  6. A criação de uma política nacional sistêmica de qualidade do ar, garantida por lei;

  7. O investimento na ciência de dados por trás das políticas de qualidade do ar;

  8. O desenvolvimento de políticas robustas, regionais e nacionais para a gestão e o controle de queimadas.

Para saber mais sobre como ajudar, conheça e apoie a iniciativa Médicos Pelo Ar Limpo, a primeira rede brasileira de profissionais e entidades da área médica que atua para promover a qualidade do ar e o combate à mudança do clima.

Além da nossa iniciativa, o Instituto de Saúde e Sustentabilidade, organização pioneira no assunto impactos da urbanização na saúde, tem uma vasta produção de conhecimento acerca do tema. Saiba mais sobre o trabalho produzido nesse link.


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